Prisão do casal investigado é resposta necessária, mas não encerra a pergunta central: quem acompanhava a menina e como possíveis sinais de violência não foram interrompidos antes?
A morte de Melry, de 10 anos, em Canela, não pode ser tratada apenas como mais um caso policial. A prisão preventiva do casal investigado por tortura com resultado morte é uma resposta importante da Justiça, mas não basta. A pergunta que agora precisa ser enfrentada é ainda mais dura: como uma criança sob guarda provisória chegou ao hospital em estado gravíssimo sem que a violência fosse interrompida antes?
De acordo com o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, a prisão preventiva foi decretada diante da gravidade dos fatos apurados, da vulnerabilidade da vítima e da necessidade de preservar a investigação. O processo tramita em segredo de justiça.
Melry vivia sob guarda provisória concedida desde dezembro de 2025 por decisão judicial do Estado do Pará. Esse ponto torna o caso ainda mais sensível, porque exige respostas não apenas sobre quem praticou ou permitiu as agressões, mas também sobre o acompanhamento dessa guarda após a mudança da criança para Canela.
A investigação criminal deverá apontar responsabilidades individuais. Mas a sociedade também precisa saber se houve falha de comunicação, ausência de acompanhamento, fragilidade institucional ou dificuldade real de identificação dos sinais de violência.
A cobrança é necessária e legítima: quem sabia da presença da criança em Canela? O Conselho Tutelar foi comunicado? A escola percebeu algum sinal? A rede de saúde teve algum registro anterior? A assistência social acompanhava a família? O Judiciário ou o Ministério Público foram informados sobre a mudança de cidade?
Essas perguntas não significam condenar previamente nenhuma instituição. Significam cobrar o funcionamento da rede de proteção. Quando uma criança morre com suspeita de violência dentro do ambiente em que deveria estar protegida, a resposta não pode parar na prisão dos investigados.
O Estatuto da Criança e do Adolescente determina que casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos sejam obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar. Também estabelece que crianças e adolescentes devem ser protegidos contra qualquer forma de violência, crueldade, opressão ou tratamento desumano.
Por isso, o Caso Melry precisa provocar mais do que comoção. Precisa provocar revisão de protocolos, integração entre órgãos e respostas públicas. Canela tem o dever de saber se a rede de proteção funcionou, se foi acionada, se falhou ou se sequer teve acesso às informações necessárias para agir.
A prisão do casal investigado é uma etapa. A apuração completa deve ir além. É preciso responder como a violência chegou tão longe, quem deveria acompanhar a situação e quais medidas serão tomadas para que nenhuma outra criança desapareça dentro do próprio sistema que deveria protegê-la.
A dor de Melry não pode virar silêncio institucional. A comunidade merece respostas. A infância exige proteção real. E a investigação precisa ir até o fim.
Redação HN
Imagem Ilustrativa








