
Declaração feita em 2015, quando Alfredo Gaspar comandava a Segurança Pública de Alagoas, reaparece onze anos depois e ganha dimensão nacional.
Um vídeo gravado há onze anos voltou a colocar o deputado federal Alfredo Gaspar no centro do debate nacional sobre segurança pública, atuação policial e combate ao crime.
A declaração foi feita em 2015, quando Gaspar comandava a então Secretaria de Defesa Social e Ressocialização de Alagoas. O material voltou a circular com força nas redes sociais após o parlamentar ser anunciado como companheiro de chapa de Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência da República.
Na gravação, o então secretário começa estabelecendo um limite para a atuação das forças de segurança: “Nenhum policial sai de casa para matar”. Gaspar acrescenta que o agente que deixa sua residência deliberadamente com essa intenção deve ser tratado como criminoso.
Em seguida, ele defende que o Estado ofereça respaldo aos profissionais que atuam dentro da lei e enfrentam criminosos armados durante o trabalho.
“O policial tem que voltar para sua família”, afirma Gaspar ao sustentar que, em uma situação de confronto, a prioridade deve ser preservar a vida do agente de segurança que cumpre seu dever legal.
A origem da declaração
A entrevista foi concedida à Rádio Cidade FM, de Santana do Ipanema, no Sertão de Alagoas. O conteúdo foi registrado em uma reportagem publicada em 3 de abril de 2015 pelo portal Cada Minuto.
Na ocasião, Alfredo Gaspar afirmou que a missão principal das forças policiais era prender os responsáveis pelos crimes. Ao mesmo tempo, defendeu que os agentes tivessem respaldo institucional para reagir quando fossem atacados.
O então secretário também disse que não admitiria interferências políticas na administração da Segurança Pública. O enfrentamento ao crime, segundo a posição apresentada na entrevista, deveria ocorrer com firmeza, planejamento e respeito à legislação.
A declaração atravessou as fronteiras de Alagoas ainda em 2015 e chegou a ser reproduzida por veículos de outros estados. Em 2026, entretanto, o vídeo alcançou uma audiência muito maior devido ao novo cenário político e eleitoral.
Indicadores de violência caíram naquele período
A repercussão do vídeo também trouxe novamente ao debate os resultados registrados por Alagoas durante o período em que Alfredo Gaspar estava à frente da segurança estadual.
Dados do Atlas da Violência mostram que a taxa de homicídios em Alagoas caiu de 62,8 mortes por 100 mil habitantes em 2014 para 52,3 em 2015. A redução foi de aproximadamente 16,6%, a maior registrada entre as unidades da Federação naquele intervalo.
Os números coincidem com o primeiro ano do governo Renan Filho e da gestão de Alfredo Gaspar na área da segurança. O resultado não pode ser atribuído isoladamente a uma única autoridade, mas integra o contexto em que a declaração foi feita.
O balanço divulgado pelo governo estadual na época utilizou metodologia diferente e indicou redução próxima de 20%, com 417 mortes a menos em comparação com o ano anterior.
A estratégia adotada envolvia integração entre as forças de segurança, reuniões frequentes de inteligência, ampliação do policiamento ostensivo e operações coordenadas entre Polícia Civil, Polícia Militar, Força Nacional, perícia, sistema prisional e Corpo de Bombeiros.
Respaldo ao policial não significa autorização para abusos
A declaração que voltou a circular é contundente e provoca interpretações diferentes. O contexto das manifestações de Alfredo Gaspar naquele período, porém, mostra que o então secretário fazia uma distinção entre reação legal durante um confronto e práticas de execução.
Em julho de 2015, ao comentar operações realizadas depois do assassinato de policiais alagoanos, Gaspar defendeu uma atuação responsável e afirmou que as forças de segurança não poderiam promover ações de extermínio.
No início de 2016, ele também rejeitou o lema segundo o qual criminosos deveriam ser mortos. Na ocasião, afirmou que defenderia os policiais que agissem corretamente, com equilíbrio e dentro da lei, mas que não protegeria agentes envolvidos em desvios de conduta.
Esse ponto é indispensável para compreender a entrevista. O respaldo institucional ao policial que cumpre a lei não elimina a obrigação de respeitar os princípios da legalidade, da necessidade e da proporcionalidade no uso da força.
Casos com mortes ou suspeitas de abuso devem ser investigados, enquanto os profissionais que enfrentam organizações criminosas também precisam contar com treinamento, equipamentos, inteligência e proteção jurídica para exercer suas funções.
De Alagoas para o cenário nacional
Natural de Maceió, Alfredo Gaspar construiu sua trajetória profissional no Ministério Público de Alagoas. Foi procurador-geral de Justiça, comandou a Segurança Pública estadual em dois períodos e, posteriormente, ingressou na política eleitoral.
Eleito deputado federal em 2022, passou a ganhar maior projeção no Congresso Nacional e, em 2026, filiou-se ao Partido Liberal. No dia 5 de agosto, foi anunciado como companheiro de chapa de Flávio Bolsonaro.
A escolha recuperou entrevistas, declarações e resultados relacionados à sua passagem pela segurança pública. O vídeo de 2015 ganhou espaço em páginas políticas, perfis de parlamentares e veículos de comunicação de alcance nacional.
Mais de uma década depois, a declaração volta ao debate porque reúne temas que devem ocupar posição de destaque durante o período eleitoral: combate ao crime organizado, proteção dos profissionais de segurança, limites da atuação policial e responsabilidade do Estado.
O arquivo também demonstra como uma fala feita em uma rádio do interior de Alagoas pode ganhar um significado político inteiramente novo quando reaparece em outro contexto.
Para além das disputas eleitorais, a discussão central permanece atual: o Brasil precisa garantir que o policial que cumpre a lei tenha condições de voltar vivo para sua família, sem abrir mão da investigação rigorosa e da responsabilização sempre que houver abuso ou desvio de conduta.
Redação HN
Imagem: Roosevelt Valões







