
Entre turismo, comércio formal, artesanato indígena e fiscalização, Canela precisa organizar seu principal cartão postal sem desrespeitar ninguém
By Roberto Matos
A Catedral de Pedra é um dos maiores símbolos de Canela. É referência religiosa, cenário turístico, patrimônio afetivo e vitrine econômica da cidade. Justamente por isso, o seu entorno não pode continuar sendo tratado como um espaço onde tudo se resolve no improviso, na pressão das redes sociais, em operações pontuais ou em disputas que sempre retornam ao mesmo ponto.
O debate voltou a ganhar força após manifestação do vereador Lucas Dias na Câmara de Canela e reacendeu uma pergunta incômoda: quem, afinal, está organizando o entorno do principal cartão-postal da cidade?
A questão é delicada e não pode ser tratada com simplismo. De um lado, há povos indígenas com sua cultura, seu artesanato, sua história e sua necessidade de subsistência. Isso precisa ser respeitado. Artesanato indígena legítimo não pode ser confundido com problema urbano. É expressão cultural, identidade e trabalho.
De outro lado, há comerciantes formalizados que pagam impostos, alvarás, aluguel, funcionários e cumprem uma série de exigências para manter seus negócios funcionando. Também há moradores, turistas, empresários e lideranças que cobram organização, livre circulação, preservação da paisagem urbana e respeito ao comércio legalmente estabelecido.
No centro dessa discussão existe um ponto que Canela precisa encarar com coragem: nem todo produto vendido em área pública pode ser colocado no mesmo pacote do artesanato indígena.
Uma coisa é o artesanato tradicional, nativo, feito à mão e carregado de valor cultural. Outra coisa é a eventual comercialização de mercadorias industrializadas, produtos estrangeiros, itens sem procedência clara ou sem documentação fiscal, quando isso for constatado pelos órgãos competentes. Essa separação é fundamental para que o debate não seja contaminado por preconceito, mas também não seja blindado contra fiscalização.
Defender a cultura indígena não significa fechar os olhos para qualquer tipo de comércio realizado no mesmo espaço. Canela precisa ter maturidade para afirmar duas coisas ao mesmo tempo: o artesanato indígena deve ser respeitado, e eventual venda irregular de produtos industrializados precisa ser fiscalizada dentro da lei.
Uma cidade turística séria não pode escolher entre respeito e ordem. Precisa dos dois.
O que falta em Canela não é apenas fiscalização. Falta uma política pública clara, humana e permanente para organizar o entorno da Catedral sem criminalizar quem trabalha e sem abandonar a cidade à improvisação. O próprio histórico recente mostra que já houve tentativa oficial de ordenar o tema.
Em 2024, a Prefeitura de Canela firmou acordo com lideranças kaingang, com acompanhamento do MPF e da Funai, prevendo espaço específico, regras, critérios e fiscalização para o comércio indígena. Ainda assim, o assunto voltou ao centro da polêmica, sinal de que a cidade precisa transformar acordos pontuais em uma política pública permanente, clara e respeitada por todos.
Isso revela que o problema não está apenas na existência de vendedores no local. Está na falta de uma solução definitiva, contínua e respeitada por todos.
Já passou da hora de o poder público construir, com diálogo e responsabilidade, uma resposta madura para o entorno da Catedral. Essa solução passa por um espaço público adequado, digno, regularizado e bem localizado para que os povos indígenas possam expor e comercializar seu artesanato tradicional de forma ordeira, legal e respeitosa.
Esse espaço precisa ter cadastro, critério, limite, identificação, fiscalização transparente e diferenciação clara entre artesanato legítimo e mercadoria industrializada. Precisa preservar a circulação de turistas e moradores, respeitar a paisagem urbana, proteger o comércio formal e garantir dignidade para quem trabalha de forma legítima.
Não se trata de esconder ninguém. Trata-se de organizar. Não se trata de expulsar cultura. Trata-se de separar cultura de desordem. Não se trata de escolher entre indígenas e comerciantes. Trata-se de construir uma solução que respeite ambos e proteja a cidade.
A Catedral de Pedra não pode virar palco permanente de conflito. O entorno da igreja é uma das áreas mais fotografadas, visitadas e simbólicas da Serra Gaúcha. A imagem que Canela entrega ali é também a imagem que o turista leva da cidade. E imagem, em uma cidade turística, não é detalhe. É economia, reputação e identidade.
O poder público precisa sair da lógica reativa. Operação resolve o problema do dia. Política pública resolve o problema da cidade. Enquanto Canela agir apenas quando a tensão aumenta, o debate continuará voltando com mais força, mais desgaste e mais divisão.
A Câmara de Vereadores também tem papel nesse processo. Pode provocar o debate, cobrar o Executivo, ouvir comerciantes, ouvir representantes indígenas, ouvir entidades ligadas ao turismo, ouvir moradores e ajudar a construir alternativas. Mas a discussão precisa sair do campo da indignação e entrar no campo da solução.
A pergunta central não é se deve haver fiscalização. Deve. Também não é se o artesanato indígena deve ser respeitado. Deve. A pergunta verdadeira é outra: por que Canela ainda não conseguiu consolidar uma regra clara, permanente e equilibrada para organizar um espaço tão importante?
Canela tem força turística, comércio qualificado, identidade cultural e um dos cartões-postais mais conhecidos do Brasil. O que ela não pode ter é medo de organizar o próprio espaço público.
O entorno da Catedral de Pedra precisa deixar de ser palco de improvisação e passar a ser exemplo de equilíbrio. Com respeito aos povos indígenas. Com proteção ao artesanato legítimo. Com fiscalização sobre mercadorias sem procedência, quando identificadas pelos órgãos competentes. Com isonomia para o comércio formal. Com responsabilidade do poder público. E com coragem para fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo.
Porque uma cidade que vive do turismo não pode permitir que seu principal símbolo vire sinônimo de desordem. E uma cidade que se orgulha da sua história precisa demonstrar, na prática, que sabe unir respeito, regra e futuro.
Opinião in Foco
By Roberto Matos
Imagem Ilustrativa










