Carreata mobilizou apoiadores da instituição, que tem até 31 de agosto para deixar a área do aeroporto. Comunidade cobra ações concretas do poder público
O futuro do Aeroclube de Canela deixou os hangares, os gabinetes e os tribunais para ganhar as ruas da cidade.
No sábado, 18 de julho, uma carreata reuniu apoiadores da permanência da instituição no Aeroporto de Canela. Veículos com bandeiras e manifestações de solidariedade chamaram a atenção para o risco enfrentado por uma escola de aviação que completa 76 anos de história em 2026.
O movimento 100Catrapo Aviação & Amigos participou da mobilização, enquanto a Federação Brasileira dos Aeroclubes, a Febraero, também vem se posicionando publicamente em defesa da entidade. Para a Federação, o caso ultrapassa uma disputa por espaço físico e envolve o futuro da formação aeronáutica promovida pelos aeroclubes brasileiros.
A manifestação ocorreu após a Justiça Federal estabelecer o dia 31 de agosto de 2026 como prazo para a desocupação voluntária da área utilizada pela instituição.
Ordem ameaça continuidade da escola
A determinação alcança o hangar, o pátio, a sede administrativa e o posto de abastecimento.
Caso a saída não ocorra dentro do prazo, a decisão permite o cumprimento da ordem com apoio policial e, se necessário, arrombamento para que a Infraero seja colocada na posse da área.
A medida não determina formalmente o encerramento do Aeroclube. No entanto, a direção afirma que a retirada da estrutura pode inviabilizar a escola, interromper cursos e afetar alunos, trabalhadores e operações em andamento.
Atualmente, a instituição mantém cerca de 40 alunos e oferece formação para piloto privado, piloto comercial, voo por instrumentos, multimotor e instrutor de voo. O Aeroclube atua como Centro de Instrução de Aviação Civil certificado pela Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac.
Quando Canela precisou, o Aeroclube estava lá
A discussão não envolve somente aeronaves, aulas de pilotagem ou a ocupação de um hangar.
Durante as enchentes históricas de maio de 2024, o Aeroporto de Canela tornou-se um dos pontos de chegada de ajuda humanitária à região.
Aeronaves transportaram toneladas de alimentos, água, medicamentos e outros donativos. Voluntários, alunos e integrantes do Aeroclube participaram da recepção, descarga, organização e distribuição dos materiais.
Quando as estradas estavam comprometidas e milhares de famílias precisavam de ajuda, a estrutura e o conhecimento técnico ligados à instituição estavam disponíveis para a comunidade.
Dois anos depois, o Aeroclube enfrenta uma ordem para deixar o espaço onde desenvolve suas atividades.
A Infraero assumiu a administração do Aeroporto de Canela em setembro de 2024. A estatal afirma que o termo de concessão firmado anteriormente entre o Município e o Aeroclube terminou em 2023, sem renovação formal.
O presidente da instituição, Marcelo Sulzbach, sustenta que o Aeroclube buscou renovar sua situação antes da transferência da administração. Segundo ele, as mudanças entre Município, Governo do Estado e Infraero impediram a conclusão de um novo instrumento.
Esse histórico não garante automaticamente a permanência da entidade, mas demonstra que o problema não surgiu de uma hora para outra.
A Prefeitura pode não administrar mais o aeroporto, mas participou da concessão anterior, acompanhou a transição e conhece a importância histórica, educacional e social do Aeroclube.
Moções e homenagens foram suficientes?
Em 2024, a Câmara de Vereadores aprovou uma indicação para que o Executivo analisasse o reconhecimento do Aeroclube como entidade de utilidade pública municipal.
Em 2025, o Legislativo aprovou uma moção em homenagem aos 75 anos da instituição.
As iniciativas demonstram reconhecimento político. Contudo, indicações e homenagens não suspendem decisões judiciais, não renovam contratos e não garantem a continuidade das atividades.
A comunidade tem o direito de perguntar: o que foi feito, além dos discursos e das homenagens, para impedir que a situação chegasse a este ponto?
Infraero e Aeroclube apresentam versões diferentes
A Infraero afirma que precisa regularizar as ocupações do aeroporto e que ofereceu duas possibilidades à instituição: contratação direta limitada às atividades educacionais ou participação em licitação para atividades consideradas comerciais, como hangaragem e outros serviços.
Segundo a estatal, o Aeroclube não apresentou toda a documentação exigida e decidiu não participar da licitação. A área acabou sendo vencida por uma empresa privada do setor aéreo.
O Aeroclube contesta essa versão. A entidade afirma que as condições financeiras eram incompatíveis com sua realidade e que a proibição de receitas provenientes da hangaragem inviabilizaria a manutenção da escola.
Marcelo Sulzbach declarou que a cobrança poderia chegar a aproximadamente R$ 18 mil mensais. Os valores e as comparações apresentadas pela instituição ainda precisam ser confrontados com os contratos e as planilhas oficiais da Infraero.
E a Prefeitura de Canela?
Até o fechamento desta reportagem, o Hortênsias News não localizou, nos canais oficiais consultados, a apresentação de um plano concreto da Prefeitura para preservar o Aeroclube no aeroporto ou viabilizar uma estrutura alternativa.
Também não foi localizado anúncio público de uma comissão especial, proposta formal de mediação, cessão de outra área ou negociação conjunta envolvendo Município, Estado, Infraero e Aeroclube.
Isso não significa que conversas não tenham ocorrido. Significa que, diante de uma ordem com prazo definido, a comunidade ainda não conhece uma resposta pública proporcional à gravidade da situação.
Canela pode perder mais do que um hangar
O Aeroclube não está acima da lei. A ocupação de uma área pública precisa ser regularizada e juridicamente sustentável.
Mas cumprir a legislação não deveria impedir a busca por uma solução diferenciada para uma instituição sem fins lucrativos, dedicada à formação profissional e reconhecida por sua contribuição histórica e social.
Ainda pode haver espaço para mediação, revisão das condições econômicas, separação entre atividades educacionais e complementares ou disponibilização de outra área.
A carreata mostrou que a discussão já não pertence apenas ao Aeroclube e à Infraero.
Pertence a Canela.
Em 2024, o Aeroclube estava presente quando a comunidade mais precisou.
Em 2025, recebeu homenagens pelos serviços prestados.
Em 2026, enfrenta a possibilidade de ser retirado com apoio policial.
A Prefeitura de Canela vai liderar uma mobilização para preservar 76 anos de história ou apenas acompanhar o seu possível fim?
O Hortênsias News mantém espaço aberto para manifestações da Prefeitura de Canela, da Câmara de Vereadores, da Infraero, do Governo do Estado, da empresa vencedora da licitação e do Aeroclube de Canela.
Redação HN
Imagem: Ilustrativa








