
Infraero fala em ocupação irregular, contrato vencido e necessidade de licitação. Aeroclube defende permanência, história e pertencimento dentro da estrutura aeroportuária.
A disputa entre a Infraero e o Aeroclube de Canela vai além de uma discussão sobre contrato, aluguel ou uso de área pública. O caso expõe um impasse maior sobre o futuro do Aeroporto de Canela e levanta uma pergunta incômoda: a cidade está diante de uma necessária regularização administrativa ou do possível apagamento de uma entidade histórica da aviação regional?
A Infraero afirma que o Aeroclube permanece em área do aeroporto sem contrato vigente desde 2023. Segundo a estatal, após assumir a administração do terminal, passou a ter o dever legal de organizar, controlar e regularizar o uso dos espaços dentro do sítio aeroportuário. A empresa sustenta que ofereceu alternativas administrativas, incluindo a formalização de uso para atividades educacionais ou a participação em licitação para atividades comerciais.
Do outro lado, o Aeroclube não se apresenta apenas como alguém que deseja ocupar uma área. A entidade defende sua permanência dentro de uma estrutura onde construiu história, formou pilotos, movimentou a aviação regional e prestou serviços à comunidade. Para lideranças ligadas ao setor, o sentimento é de desprestígio: uma instituição tradicional estaria sendo tratada de forma fria justamente no momento em que o aeroporto volta a ganhar valor estratégico.
Nos bastidores, fontes ouvidas relatam que o desgaste não começou agora. Há queixas sobre valores considerados elevados para ocupação por metro quadrado, sobre a demora em tratativas anteriores de renovação da licença e sobre episódios interpretados por representantes ligados ao Aeroclube como sinais de exclusão institucional. Entre os relatos, também aparece a reclamação de que lideranças da entidade não teriam sido contempladas em agendas e eventos relacionados ao novo momento do aeroporto. Esses pontos, porém, são tratados como relatos de bastidor e ainda não foram comprovados publicamente por documentos apresentados à reportagem.
No campo jurídico, a Infraero aparece com argumento forte quando a discussão se limita à existência ou não de contrato vigente. Área pública exige autorização, regra clara, pagamento, fiscalização e processo transparente. A estatal também afirma que a disputa já teve análise judicial favorável à sua posição, reforçando o entendimento de que não haveria direito de permanência sem título jurídico válido.
Mas a leitura política e comunitária é mais complexa. O Aeroclube de Canela não é uma empresa recém-chegada tentando explorar um espaço público. É uma entidade com décadas de atuação, ligada à formação aeronáutica, à aviação geral, à memória do aeroporto e ao próprio imaginário da cidade. Por isso, reduzir o caso a uma simples cobrança de área ocupada parece insuficiente para explicar a dimensão do conflito.
A polêmica cresce porque o impasse ocorre justamente em um momento de reposicionamento do Aeroporto de Canela. Com a chegada da Infraero e novas promessas para a estrutura, cada espaço dentro do terminal passa a ter peso econômico, operacional e estratégico. Nesse cenário, a permanência do Aeroclube deixa de ser apenas uma questão administrativa e passa a representar uma disputa de pertencimento.
A regularização pode ser necessária. Mas a forma como ela acontece também importa. Se o Aeroclube precisa se adequar às novas regras, também cabe à Infraero e ao poder público explicarem se existe disposição real para preservar uma atividade histórica, educacional e comunitária dentro do novo modelo de aeroporto.
No fim das contas, o caso parece menos uma briga simples por ocupação e mais um choque entre duas visões de futuro. De um lado, a gestão técnica, jurídica e comercial do aeroporto. De outro, a história, a formação e o sentimento de pertencimento de uma entidade que ajudou a manter viva a aviação em Canela.
A pergunta que fica é direta: regularizar o Aeroporto de Canela significa organizar a estrutura ou retirar de cena quem fez parte da sua história?
Redação HN
Imagem Ilustrativa







